sexta-feira, 14 de outubro de 2016

O fim que gerou o início de um sonho - Meu aborto!

  Como muitos de vocês sabem, nunca pensei em ter filhos. 
Nunca quis ter filhos, e nunca me considerei uma pessoa maternal, apesar de ser canceriana, melosa e carinhosa e amar bebês. E aí aconteceu... em Julho de 2016, pouco depois de eu ter completado 30 anos, eu engravidei. Foi a minha primeira gravidez, depois de 12 anos junto ao meu marido Cadu, desses 12 anos, estávamos prestes a completar 5 anos de casados. Não planejamos. Nunca planejamos nada em nossa vida... e gostamos de viver assim. Eu resolvi parar de tomar o anticoncepcional em outubro de 2015 para fazer uma bateria de exames, uma espécie de checkup dos 30 anos. E em meio a tudo isso resolvi continuar assim, pois eu tenho um grande medo dessas histórias todas de Trombose, AVC e tudo mais que o anticoncepcional pode causar. Conversamos sobre a parada do remédio, e concordamos. 


  Cadu resolveu fazer um Espermograma em meio a tudo isso, que deu alterado, mostrando que a maioria de seus espermas não eram “espertinhos”. Não lembro as porcentagens mas sei que eram bem significantes, e seu urologista disse que não seria assim tão simples me engravidar. Respiramos aliviados, qualquer outro casal piraria, mas nós não... adoramos saber disso porque não queríamos filhos. Seguimos a vida nos próximos meses sem nenhum tipo de prevenção. E em Julho de 2016 eu engravidei.

  Foi um susto... ah e como foi. Um susto delicioso descoberto através de dois testes de farmácia que deram positivo e um Beta feito no dia seguinte. E realmente foi tudo aquilo que dizem, uma das sensações mais maravilhosas que se pode sentir. Sentir e saber que estou gerando uma vida dentro de mim, foi lindo e como um toque de mágica, todo aquele sentimento de “Não quero ser mãe!” desapareceu.


  Pela primeira vez, pude entender que Deus faz planos para nós de uma forma inexplicável, e devemos deixa-lo agir sim em nós. Eu acreditei que tudo era possível.
Tive alguns problemas com a ginecologista que me acompanhava, e eu não conseguia voltar nela para levar os resultados de exames para enfim começar a fazer o Pré-Natal. Fiz o que muitas mulheres têm pavor de fazer, troquei de médico, fui para um verdadeiro obstetra e pela primeira vez resolvi ter consultas com um homem. Quando enfim consegui fazer uma consulta, eu já estava com mais de 8 semanas, quase 9 e alguns dias depois, fomos para o tão esperado primeiro Ultrassom, que é o desconfortável transvaginal, já que nesse período de gestação, é a única maneira de ver o bebê e escutar os batimentos cardíacos. E então, veio o segundo susto. Não havia batimentos cardíacos. Eu já estava de 8 semanas e 6 dias, e não tinha nenhum batimento cardíaco. O médico da clínica que fez o ultrassom foi frio e chegou a me questionar se eu tinha algum tipo de sintoma de gravidez, como se minha gravidez pudesse ser uma mentira. Mas enfim... não me apeguei muito à maneira como ele nos tratou. A única coisa que eu via, era o meu pequeno embrião na tela, ali parado e sem batimentos cardíacos. No laudo, constou que eu poderia ter sofrido uma “Falência Embrionária Precoce”, completamente normal em qualquer mulher em sua primeira gestação. Constava também que o embrião tinha o tamanho de 6 semanas e 5 dias e não de 8 semanas e 6 dias conforme meu último dia de menstruação.

  Meu mundo desabou... todos os sonhos e aquele sentimento delicioso de estar grávida, ACABARAM! Fiquei com o emocional abaladíssimo, e chorei por 3 dias inteiros. Cadu, o melhor marido do mundo, que me segurou a barra, e tamanha tristeza foi a dele também. Ele forte, chorou em alguns momentos, longe de mim, e aquilo acabava comigo também.
Os pensamentos de uma mulher que acaba de descobrir que perdeu o bebê, são os piores do mundo.
Ela se compara a outras mulheres que tiveram a gravidez bem-sucedida. Ela se compara no quesito: eu que sou casada, num relacionamento duradouro, não consegui, e aquela que engravidou namorando há 6 meses, conseguiu. Mulheres que não se cuidam, usam drogas, moram na rua, conseguem e eu não? O que há de errado comigo? Por que comigo? O que eu fiz de errado?

  E não adianta dizer que é normal, que já aconteceu e acontece com muitas mulheres, até mesmo aquelas próximas a você, não adianta. A dor, o sentimento de inutilidade, é muito maior do que todas as estatísticas existentes no mundo obstétrico. Nada vai ajudar a passar. NADA! Nem dizer que depois a gente tenta de novo, ou que não era a hora... isso não tira do nosso coração a vontade enorme que tínhamos daquele bebê, daquela gravidez dar certo. Nenhuma outra gravidez vai substituir essa dor e essa perda, por mais feliz que ela venha ser um dia.

  O despertar da maternidade que tive nessas 8 semanas, foi muito maior do que qualquer situação ruim que viesse acontecer. Os sapatinhos já estavam feitos, já havia uma mantinha feita e algumas roupinhas compradas. Pensei em tudo, no cantinho do meu quarto aonde eu colocaria o berço, planejei que o bebê ficaria no meu quarto, para tê-lo por perto nas madrugadas chorosas. Planejei a cômoda, ganhei um berço usado (que não chegou a vir para casa). Entrei em inúmeros grupos de Desapegos no facebook, pois eu adotaria o princípio minimalista, e queria adquirir muitas coisas usadas. Pensei em qual escolinha iria colocar esse bebê, depois que eu voltasse a trabalhar. O Bebê nasceria em abril, e será que estaria frio, calor? Nasceria grande, pequeno, gordinho? Seria menino ou menina? Já tínhamos os nomes desde que éramos namorados.

E tudo isso acabou com um simples exame de ultrassom!
Consegui voltar ao meu médico, somente 1 semana depois desse ultrassom fatídico. Eu estava abatida, e não tinha conseguido voltar ao trabalho ainda, por vários motivos, entre eles era a vergonha, isso mesmo, a vergonha da pena como as pessoas lá poderiam me olhar. Meu médico solicitou um novo ultrassom, para 15 dias depois daquele já feito. Marquei mais que depressa. Precisávamos confirmar se realmente eu estava com Aborto Retido. Tive alguns dias de sangramento (ralo e nada dimensional) até chegar o dia desse ultrassom. E como eu já estava completamente conformada com a perda do bebê, eu havia decidido que esperaria por um aborto espontâneo. Detesto a ideia de passar por um procedimento cirúrgico como a curetagem. Fui algumas vezes à maternidade para ter atendimento emergencial devido ao sangramento, e no exame foi constatado que meu colo do útero estava fechado, logo eu não estaria em nenhum processo de aborto. Novamente aguardei, por um momento em que meu corpo resolvesse por conta própria expelir o embrião.

   Foram as semanas mais longas da minha vida, que me impediram psicologicamente de trabalhar e estudar. Eu mal sorria, mal conseguia seguir minha rotina. O próximo ultrassom estava agendado para 28/09, e nos dois dias anteriores eu comecei a sentir umas cólicas fortes e bem incomodas... eu percebia que essas cólicas eram ritmadas, no estilo de contrações, e na manhã de 28/09, pouco antes de meu último exame elas pioram imensamente. Curiosamente ou coincidentemente era nesse dia que eu completaria 11 semanas de gestação!
   
   Meu próprio instinto de mulher, em meio às dores me fizeram ir ao chuveiro em plenas 6 da manhã, e fiquei massageando a barriga na água quente. Meu corpo me pedia para agachar e fazer força, foi quando senti que começava a sangrar, sangue vivo, de cheiro forte. Eu estava ali, no box do meu chuveiro, agachada e abortando, finalmente. Fiquei cerca de 40 minutos no chuveiro, e as cólicas, que eram sem sombra de dúvidas contrações, vinham mais fortes a cada 5 minutos. Acordei meu marido, liguei para a clínica e perguntei se poderia fazer a ultrassonografia mesmo assim. Fomos à clínica, e fizemos a minha última transvaginal que confirmou que eu estava com o processo de abortamento em andamento. Enquanto aguardávamos o Laudo, as dores pioraram muito, o que me impedia de me manter sentada ou em pé. Eu só queria ficar deitada me contorcendo de dor. Corremos ao pronto atendimento de minha maternidade, onde fui rapidamente atendida por uma ginecologista que confirmou que meu colo do útero estava aberto. Ela me medicou para tirar a dor, e como eu havia decidido por eliminar naturalmente a médica me liberou para casa com a condição de voltar no dia seguinte para passar por uma nova análise e ver se eu realmente havia eliminado tudo.
O Sangramento continuou durante aquele dia, mas nada tão significante. Passei o dia sem dor, e dormi bem, porém no dia seguinte acordei com as dores 100 vezes piores do que as dores do dia anterior, o que me obrigou a voltar à maternidade.    
   Passei pela consulta e a ginecologista plantonista disse que meu colo do útero havia fechado e que as dores significavam que eu não havia conseguido eliminar o embrião por completo. Ela me internou e decidiu que eu deveria passar pela curetagem. O medo desse nome era grande, mas eu estava com tanta dor, que independente do meu medo, eu queria só não sentir mais. Fui medicada com 3 tipos de medicamentos, que me tiraram as dores, e tive que passar pelo processo de dilatação do útero com medicamentos introduzidos. Os medicamentos foram bons, tiraram minhas dores, mas as pontadas ainda aconteciam em cerca de a cada 10 ou 15 minutos, e fui para o quarto aguardar a preparação em jejum absoluto. Minha mãe e meu marido me acompanharam durante todo esse período, e finalmente por volta das 19 horas fui levada à sala de cirurgia.
   Eu tremia de medo, nunca havia tomado uma anestesia que me dopasse e eu tinha medo de tomar uma possível RAC, mas foi muito tranquilo. A anestesia que tomei foi uma única na veia que me adormeceu rapidamente, sem nem ao menos eu perceber. Quando acordei já tinha acabado.
   A curetagem no fim das contas, foi mais tranquila do que todas as dores que eu estava “pronta” para enfrentar no aborto espontâneo. Se eu soubesse disso, e não estivesse com tanto de medo de deitar numa mesa de cirurgia, eu teria feito assim que descobri a falência embrionária.

Como estou hoje?
Bem... melhor do que imaginava, mais forte, mais poderosa, e isso ninguém tira de mim. Sinto-me mais preparada para qualquer problema que eu venha a enfrentar nessa vida... sei que existem dores piores, mas esta foi a MINHA dor, e fui eu que passei por ela... eu sei de meus limites. E agora mais do que nunca sei dos meus pesares.

Se quero outro filho?

Quando me perguntam isso, eu costumo dizer que sim. Mas não agora. Até por que sei que devo aguardar mesmo por um acompanhamento médico e preparação... A gravidez me despertou para algo que eu nunca havia desejado, ser mãe! E por mais que eu não tenha tido um bebê ainda, eu já fui fecundada, meu útero já preparou uma gravidez, e me sinto mãe de alguma forma, mesmo que de algo inexistente, concretamente dizendo. Depois de tudo o que passei, a única certeza que tenho nessa vida é que... Deus sabe o que faz, qual é a hora certa para tudo, e principalmente, do que você é capaz de enfrentar!

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